O legado de Delmiro Gouveia: o visionário que transformou o sertão

Região

No final do século XIX, em meio ao sertão castigado pela seca e pela pobreza, surgiu um homem que mudaria para sempre o destino daquela terra: Delmiro Augusto da Cruz Gouveia. Nascido em 1863, em Ipu, no Ceará, Delmiro foi um comerciante audacioso, com visão muito além do seu tempo.

Depois de acumular experiência e recursos no comércio, ele se estabeleceu na região próxima às quedas d’água de Paulo Afonso, onde enxergou no Rio São Francisco a força necessária para impulsionar seus projetos. Ali, no sertão de Alagoas, começou a erguer não apenas negócios, mas sonhos.

Sua obra mais famosa foi a Fábrica da Pedra, inaugurada no início do século XX, no local que hoje é o município de Delmiro Gouveia (AL). A fábrica produzia linhas de costura de altíssima qualidade, competindo diretamente com marcas estrangeiras. Para viabilizar tudo, ele construiu uma pequena usina hidrelétrica, iluminando a vila operária e a própria fábrica — algo impensável para o interior nordestino naquela época.

Delmiro também se preocupou com o bem-estar dos trabalhadores. Mandou construir casas para as famílias, escola, hospital e até um cinema, criando uma comunidade organizada e com qualidade de vida rara para a época. Sua visão de desenvolvimento ia muito além do lucro: ele queria transformar o sertão em um lugar próspero e digno para viver.

Mas seu sucesso incomodou. Há relatos de que multinacionais, como a inglesa Machine Cotton, se sentiram ameaçadas pela competitividade da Fábrica da Pedra. Em 1917, Delmiro foi assassinado de forma misteriosa, em um crime que até hoje desperta dúvidas e teorias. Pouco tempo depois, sua fábrica foi vendida a estrangeiros e desativada, pondo fim a um projeto que estava anos à frente do seu tempo.

Mais de um século depois, o nome Delmiro Gouveia continua vivo. A cidade que leva seu nome mantém viva a memória desse homem que ousou sonhar grande no meio da caatinga. As ruínas da Fábrica da Pedra ainda podem ser visitadas, como um testemunho silencioso de que, um dia, o sertão teve um líder visionário capaz de enxergar além do horizonte.

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